Ilha dos Sonhos

Ilha dos Sonhos
Novos lugares, novas aventuras, novas emoções...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

NELL




Nell é um filme que trata de uma mulher de cerca de 30 anos que foi criada na floresta longe de toda sociedade e civilização, tendo contato somente com a sua mãe e sua irmã gêmea falecida entre 6 a 10 anos de idade. A mãe de Nell sofreu derrame e por isso não possuía uma dicção adequada, era afásica, e se escondia do mundo provavelmente por ter sido foi vítima de estupro e não possuía parentes para lhe amparar. Após a morte de sua mãe, a personagem Nell passa a viver sozinha. O enredo do filme mostra a tentativa de civilizar Nell, nas ações do médico e da psicóloga. No entanto no decorrer do filme surge o seguinte questionamento: Mas será certo civilizar uma pessoa selvagem, sem que ela deseje realmente isso?
Conforme a perspectiva adotada para conceituar cultura, pode-se afirmar que Nell não tinha cultura. Isso seria possível, desde que a base fosse etnocêntrica. Em paralelo, observando-se o conceito de cultura sob o viés relativista, pode-se confirmar a cultura de Nell. A partir dessas noções, traça-se um curioso embate entre o que são cultura e o que não é cultura. Todos os personagens do filme, em princípio, consideram Nell uma selvagem. Nesse sentido, atribuem a ela a não civilização, um comportamento distinto do deles, uma falta de sociabilidade; enfim, os vários requisitos, para se viver em sociedade, sob o prisma deles, a personagem não apresentavam.
Ao se considerar, por exemplo, os rituais que Nell praticava como a maneira como sepultou sua mãe ou a sua ida ao rio à noite para banhar-se ou mesmo o retorno ao local onde sua irmã tinha sido enterrada, não se podem, numa perspectiva relativista, considerar que ela não possui cultura. Ao contrário, ela, mesmo isolada, mantinha a tradição cultural de seu grupo, qual seja, sua mãe e sua irmã.
Quando a personagem passou a manter interações com outras pessoas, o médico e a psicóloga, por exemplo, inicialmente, apresentou sérios problemas de comunicação verbal, entretanto, à medida das interações, ela passa a acumular conhecimentos lingüísticos outros, ampliando seu léxico, restrito até então em razão de seu contato lingüístico ter sido apenas com sua mãe.
Considerando-se a convivência entre Nell, Lovell (médico) e Paula (psicóloga), compreendem-se melhor as questões concernentes aos equívocos que muitas sociedades cometem na tentativa de imposição de sua cultura frente à cultura do outro, ou mesmo, de não consideração da cultura diferente.
A cena do julgamento, ao final do filme, chama à reflexão desses aspectos, posto que Nell mostre a todos naquela audiência o quanto ela é um ser humano, ainda que tenha vivido em condições diferentes das de todos ali. Ela demonstra todo seu carinho, seu medo, sua angústia, sua vontade, enfim, sem nem mesmo falar à língua que os outros queriam que ela falasse, nesse caso, o inglês. Nesse aspecto, a personagem prova que a linguagem humana é universal, que os sentimentos e tudo o que está em torno deles são universalmente produzidos pelo homem.
Retornando, mais precisamente, à questão: Mas será certo civilizar uma pessoa selvagem, sem que ela deseje realmente isso? Qual seria o conceito de selvagem? Civilizar é, necessariamente, tornar uma pessoa melhor?
Desta forma como as culturas são distintas, as línguas também o são, então Nell teria de fato uma língua? Dessa forma, não se deve pensar Nell como uma selvagem, mas sim, como uma pessoa que vive outra cultura, bastante distinta da nossa, nem por isso melhor ou pior. Além disso, seria bastante hipotético, a priori, tecer qualquer tipo de consideração acerca dos desejos dela, tanto que a convivência dos três os fez adaptar seus comportamentos no sentido de entender melhor uns aos outros.
Portanto, pelo menos no filme, constata-se uma convivência pacífica entre Nell e os outros, mostrada na cena final, em que as culturas são respeitadas e não há a imposição de uma das culturas. No entanto, pode-se inferir que Nell sofreu mais adaptações à cultura da cidade que o contrário.
Sarah Moura.


Nenhum comentário:

Postar um comentário